Maquiavel escreveu que é melhor ser temido que amado - no que concerne à manutenção do poder. As 'lições' de O Príncipe foram escritas para um contexto absolutista de governo, Maquiavel não pensava a aplicação dos seus escritos na Democracia muito menos nas modernas versões desta que, creio eu, ele nem imaginava.
Mas a democracia tem suas falhas, e quanto mais falhas ela apresenta em suas versões localizadas, mais ela se aproxima do absolutismo permitindo que as máximas de Maquiavel se apliquem aqui e ali.
Pensando as Democracias modernas, os contemporâneos definiram a "Liberdade de Expressão" como o bem principal do regime e o ultimo bastião que o caracteriza. O voto secreto é a expressão maior dessa liberdade, no entanto vemos nas democracias mais tradicionais que a declaração de voto é comum para pessoas de alta posição social, e quase obrigatória para alguns - juízes americanos que não tomam posição partidária explicita são considerados 'homens fracos' e sem opinião, lá os grandes da imprensa se posicionam publica e claramente nas eleições ajudando o leitor, ou expectador, a entender melhor as notícias sabendo a tendencia por trás da narração. Na França, Inglaterra, Itália, Alemanha a declaração pública de voto pelas pessoas e instituições mais relevantes também é comum. Já os cidadãos comuns e simples desses países se sentem ofendidos se perguntados em quem vão votar. Sentem sua liberdade agredida, invadida, seus direitos ameaçados com a simples pergunta.
Curiosamente aqui no Brasil vemos bem o contrário, órgãos de imprensa e pessoas com proeminência social, juízes e promotores ficam bem 'na moita' quanto a assumirem posição clara e pública; já o povo simples e trabalhador não esconde seu voto... fala abertamente na rua, bar, entre conhecidos e desconhecidos, quase ninguém tem medo. Parece que a democracia existe aqui.
Mas, quanto mais alto na escala social e econômica menos as pessoas se manifestam, o pequeno comerciante tem medo do prefeito, o industrial do governador, o banqueiro do governo federal, a imprensa - de local a nacional, tem seu medo escalar na mesma proporção: um jornal local que tem os editais da prefeitura só faz critica suave e nas entrelinhas, já o jornal que não tem o contrato dos editais ataca á medida que outras publicações da prefeitura ou das empresas do prefeito não circulam nele. A mensagem dos governantes é clara: Você pode publicar e falar oque quiser, mas seu jornal pode vir a falir, o empresário pode ser ferozmente fiscalizado, o Juiz pode vir a precisar do favor de um Desembargador (cargo ainda político), o Banco pode 'ser alvo de suspeitas' do Banco Central - suficiente para afugentar correntistas, o intelectual fica com medo do MEC e de perder patrocínios, as estatais - poderosas, têm verbas extraordinárias para distribuir, e assim por diante... Liberdade de expressão existe, desde que você não tenha nada a perder. O poder econômico influencia todas as democracias modernas, sem dúvida. Mas o peso dessa influência varia conforme as regras do jogo de cada país bem como da concentração desse poder. No nosso Brasil o maior agente econômico ainda é o governo e suas estatais - aqui ele movimenta mais de 50% do nosso PIB. Quem aqui acha que o governo esta nas mãos do empresariado esta muito enganado... é o empresário que esta nas mãos de quem estiver no governo.
Assim nossa democracia deixa brecha para o maquiavelismo mais notório - o medo.
Medo que atinge os formadores de opinião. O povo fala à vontade, tem pouco a perder e fala segundo o que vê e ouve da mídia e de seus 'gurus' de opinião, por isso os poderosos não estão preocupados em acabar com essa Liberdade de Expressão, e a Democracia sobrevive; mas é preciso avançar porque a inércia definha. E vemos em alguns países com democracias mais tradicionais surgirem questionamentos sobre as regras... lá não tem inércia.


